sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O ser que sou



Será que sou eu que penso na dor?
Ou será ela que pensa em mim?
Será que sou eu que sou o ator?
Ou é a dor que age por mim?

Será que as palavras chegam?
Pra descrever o que sinto
E talvez até se atrevam
A seguir o meu instinto

O que eu sei é o que sinto
E o que eu sinto é a dor
E eu só sei que não minto
Só minto quanto sou ator

Ator de palavras, de sorrisos
Que a minha dor escondem
De gestos tão precisos
Para que não me sondem

Porque a minha dor maior
É sentir a dor de alguém
É ser o espetador
Da dor de outrem

Prefiro chorar por dentro
Para os outros sorrirem
Prefiro estar no mau tempo
Para os outros curtirem

Porque a dor que eu vivo
Essa eu guardo em mim
Das perguntas me esquivo
Estou bem, digo enfim

E a minha dor é só minha
Minha e de mais ninguém
Prefiro passá-la sozinha
Do que magoar alguém

A dor não cabe num sorriso
Mas num sorriso cabe a dor
Mas no fundo o que eu preciso
É um abraço que cure a dor

Dor de ser eu
De não ser outro
Dor de quem perdeu
O muito do pouco

Que tive, que tinha
Que agora não tenho
Só ficou dor, a mazinha
A dor que só tenho

A dor é um presente
De mim para mim
Eu abro contente
Depois fico assim

É fácil ver um sorriso
Não sabendo que por detrás
Dele está um aviso
Da dor do rapaz

Ao tentar fazer o certo
Só faço o errado
Ao tentar chegar perto
Dou um passo mal dado

Não sei o que é ser completo
Muito menos suficiente
Só sei o que é ser sem afeto
Só sei ser um ser carente

De tanto saber e não saber
A cabeça entra em conflito
De tanto doer e remoer
O corpo fica aflito

E só eu sei o quando dói
Só eu sei o quanto choro
Só eu sei o quanto destrói
A dor que é a prisão onde moro

Pra mim não há solução
Não existe escapatória
Levo um sorriso na mão
E a dor na minha história

Quando mais penso
Mais fundo vou
No poço imenso
De onde a dor saltou

Quanto mais lembro
Mais a dor me assombra
A dor é o novo membro
Que acompanha a minha sombra

E a dor não tem fim
Mas o poema sim
Porque enquanto houver dor
Não ficam sem o ator

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