Será que sou eu que penso na dor?
Ou será ela que pensa em mim?
Será que sou eu que sou o ator?
Ou é a dor que age por mim?
Será que as palavras chegam?
Pra descrever o que sinto
E talvez até se atrevam
A seguir o meu instinto
O que eu sei é o que sinto
E o que eu sinto é a dor
E eu só sei que não minto
Só minto quanto sou ator
Ator de palavras, de sorrisos
Que a minha dor escondem
De gestos tão precisos
Para que não me sondem
Porque a minha dor maior
É sentir a dor de alguém
É ser o espetador
Da dor de outrem
Prefiro chorar por dentro
Para os outros sorrirem
Prefiro estar no mau tempo
Para os outros curtirem
Porque a dor que eu vivo
Essa eu guardo em mim
Das perguntas me esquivo
Estou bem, digo enfim
E a minha dor é só minha
Minha e de mais ninguém
Prefiro passá-la sozinha
Do que magoar alguém
A dor não cabe num sorriso
Mas num sorriso cabe a dor
Mas no fundo o que eu preciso
É um abraço que cure a dor
Dor de ser eu
De não ser outro
Dor de quem perdeu
O muito do pouco
Que tive, que tinha
Que agora não tenho
Só ficou dor, a mazinha
A dor que só tenho
A dor é um presente
De mim para mim
Eu abro contente
Depois fico assim
É fácil ver um sorriso
Não sabendo que por detrás
Dele está um aviso
Da dor do rapaz
Ao tentar fazer o certo
Só faço o errado
Ao tentar chegar perto
Dou um passo mal dado
Não sei o que é ser completo
Muito menos suficiente
Só sei o que é ser sem afeto
Só sei ser um ser carente
De tanto saber e não saber
A cabeça entra em conflito
De tanto doer e remoer
O corpo fica aflito
E só eu sei o quando dói
Só eu sei o quanto choro
Só eu sei o quanto destrói
A dor que é a prisão onde moro
Pra mim não há solução
Não existe escapatória
Levo um sorriso na mão
E a dor na minha história
Quando mais penso
Mais fundo vou
No poço imenso
De onde a dor saltou
Quanto mais lembro
Mais a dor me assombra
A dor é o novo membro
Que acompanha a minha sombra
E a dor não tem fim
Mas o poema sim
Porque enquanto houver dor
Não ficam sem o ator