As lágrimas caem
Mas não me sinto melhor
A cada lágrima saem
Pequenos infinitos de dor
Tempo frio e chuvoso
Não fora mas dentro
Do meu corpo horroso
Já mal me aguento
E a cada pensamento
Eu fico pior
Mais apagado, cinzento
Mais longe da cor
Eu queria ser alguém
Que soubesse ser feliz
Mas eu não sou ninguém
Sou o que ninguém quis
Sou um cais de partida
Estou mais pra cais partido
Vejo sair da minha vida
Quem eu queria comigo
Tremo, mas não é do frio
É sim, do vazio
Que cá dentro sinto
No meu coração extinto
Sinto me um erro
Não tenho conserto
Tenho um coração perro
Que ninguém quer por perto
Porque a minha ausência
Nem sequer é sentida
Nem a minha presença
Afeta alguma vida
Porque o que eu não sou
Os outros são
Porque eu não sou bom
E os outros são
Porque eu tenho defeitos
E os outros são perfeitos
E porque eu tenho jeitos
Em nada perfeitos
E eu tento ser bom
Mas em falhar tenho o dom
De estragar sempre tudo
E de ficar sempre mudo
As muralhas do meu forte
É aquilo que conseguem ver
Mas por dentro está a morte
Dos silêncios em que estou a morrer
Pode parecer que aguento
Mas isso não é verdade
Tudo o que faço, eu lamento
De viver perco a vontade
E é muita a tristeza
Que eu guardo aqui dentro
Não consigo ver beleza
No meu próprio sentimento
E por mais que seja hábito
Continua a doer
E em nada é bonito
Sofrer e sofrer
Cada minuto em que sofro
Em mim hora se torna
E sinto o leve sopro
Da dor que me adorna
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